15 de jun de 2015

Vivi, mas não quero que vivam!

No último domingo, 14, tive a felicidade de ser convidado para um evento promovido pela Sólida Imóveis, no Clube dos Médicos, onde a grande atração do dia era a cantora paraibana Elba Ramalho. De cara aceitei o convite feito por um corretor da imobiliária.

Foto retirada de:

http://acontecesantyago.blogspot.com.br
A coisa tava boa. Um trio pé-de-serra pra animar o evento, um buffet caprichado e, de repente, lá pelas quatro da tarde, ela sobe ao palco. Ai, meu amigo, o negócio esquentou.

Estávamos em grupo de quatro pessoas. E curtimos bastante. Até que, num determinado momento, Elba começa a agradecer a presença de todos e o convite para estar ali e, como que lendo um script do teleprompt do JN, começa a vomitar coisas que lhe angustiavam.

De repente me vi em meio a um editorial de jornal (ou revista), cujos diretores deveriam ser William Bonner e Marco Feliciano, com textos transcritos de falas do Arcebispo da Paraíba, Dom Aldo, com comentários de Jair Bolsonaro. E o excreto vomitado tinha de tudo: do contra-aborto (pela vida) até um feroz ataque à investida de minorias GLBTs, quando da conquista de alguns direitos (que nem conquistaram ainda).

Elba, católica, devota de Nossa Senhora, como insiste em dizer a cada show, também não poupou ofensas ao governo (num disse que tinha dedo do JN aí?). Como quem ouviu falar e interpretou do jeito que Arnaldo Jabor mandou interpretar, criticou o governo federal pela tentativa de atacar o modelo de família que ela, e milhões de fanáticos religiosos fundamentalistas, acredita ser o único concebido por Deus, que até hoje (pensamento meu) prova não ser o ideal. Tanto não é que ela própria já fez e desfez duas famílias, sem querer entrar no mérito de rebaixar a sua imagem, mas necessitando colocar isso para mostrar que ninguém tem o direito de julgar a vida alheia, por mais fundamentalista que seja a sua religião (e não a bíblia – já leu?).

Com o clamor de parte do público, aplausos e gritos de ‘é isso ai!!”, a cantora encontrava eco para suas palavras de ódio camufladas numa carinha de preocupação com um futuro cada vez pior.

Como disse, atacou o direito ao aborto e incitou o medo nos pais por uma proposta do governo de dar direito a, segundo ela, criancinhas de 5 anos mudarem de sexo, se assim desejarem.

Nesse último ponto, talvez Elba se referisse ao projeto de lei dos deputados Jean Willys e Debora Kokay, que, no art. 5º, prevê que, em casos de menores de idade que queiram realizar mudança de identidade de gênero (motivo da PL), com consentimento e por requerimento de responsáveis legais, isso possa ser realizado. Obviamente, a mídia e seus alto-falantes personificados (atores, cantores, jogadores e outros ores) deturparam a proposta, inflamando que o governo (e nem foi o governo, foram dois deputados) quer mudar o sexo de criancinhas indefesas. Veja só! Não sei se foi isso que ela quis dizer, mas foi exatamente isso que eu entendi. E foi isso que, recentemente, apareceu na minha linha do tempo nas redes sociais. Elba chegou a comentar que pela lei, se um filho quiser brincar de boneca, os pais não poderão proibir. Mostrou muita preocupação quando disse que o Brasil estaria virando uma Cuba. Arriégua!!!

Elba Ramalho nasceu num Estado pobre. Se deslocou para o sudeste do país na busca de sua realização pessoal. Enquanto mulher, foi baterista, fez aborto (embora diga que se arrependa disso), subiu aos palcos e fez parte de grupos feministas num período de descriminalização ferrenha contra o seu sexo. E alcançou o seu espaço. Tinha tudo para abraçar a causa das minorias, justamente por ter sentido na pele (ou não) as dificuldades e preconceitos de grupos criminalizados pela mídia de massa e pela própria massa. Mas, talvez por uma questão de sobrevivência midiática, optou por estar do outro lado. Do lado dos opressores.

Assim, Elba Ramalho, que canta em carnavais, que encanta nossa cultura e nossos regionalismo, que fez aborto na década de 1970, que casou, separou, casou de novo, que se fez renomada no meio artístico tão cheio de criancinhas crescidas que não puderam fazer opção pela mudança de registro de identidade de gênero, que conhece casas de famílias não-tradicionais onde o amor e a solidez são tão mais forte quanto, por exemplo, nas duas famílias que ela construiu, que posou pra revista masculina, que tatuou o corpo, por ter vivenciado isso tudo, prefere negar que outros tenham o mesmo direito à vida que ela teve. E que, diga-se de passagem, foi uma vida muito bem vivida.