5 de fev de 2010

A decepção do século

De repente estou no meio de uma confraternização, numa daquelas animações de domingo, sem compromisso. E eis que começam a falar de política. Podia dizer que até bem pouco tempo era minha praia. Adoro fazer e ouvir comentários acerca dos partidos políticos, projetos, futuro, eleições e, de repente, me vejo bombardeado por questionamentos que jamais pensei em responder. De todos, o mais sutil foi: “será que ainda dá pra acreditar nesses que tu indica?”

Obviamente que quando se fala sobre política, as alianças que os personagens fazem também entram na roda. Ai não precisa ser nenhum gênio da lâmpada pra se saber de quem falavam.

Honestamente? Ele era para ser o homem do século, em nível municipal e, talvez até, estadual. Mas, preferiu trocar suas convicções pelo alcance do seu projeto pessoal.

Lembro das manifestações que nós, estudantes, fazíamos, contra aumentos de passagens, direito à meia-entrada e meia-passagem em viagens intermunicipais. E ele lá. Podíamos contar com ele dentro da Assembléia.

E a reeleição de 2002? Até partidos como o PCR e a Juventude Rebelião participaram ativamente do processo. Fui taxado de outdoor ambulante. E as pessoas que acreditavam em mim? E as que acreditavam nas que acreditavam em mim? O que elas pensam hoje?

Outro dia, uma personalidade do mundo político disse que havia emprestado sua confiança ao seu candidato, que não tinha emprestado dinheiro. E, justamente por não ter sido dinheiro que foi empenhado, a tal personalidade se sentia triste, traído. E talvez seja isso mesmo que centenas de pessoas como eu, que pediram votos, muitas vezes tendo que argumentar por horas, para arrancar um único voto, que mais tarde se converteria em dois, cinco, sintam, uma profunda tristeza.

A estudantada recuou quando este homem foi eleito prefeito, acreditou que com ele as coisas seriam diferentes. E foram! Mas, foram diferentes do que esperávamos. O prefeito se aliou aos empresários do setor de transporte público, implementou a bilhetagem eletrônica sem uma ampla discussão, retirando, inclusive, o foco da identificação estudantil da carteirinha propriamente dita para o cartão de passe, com foto, e deu sucessivos aumentos de passagens. Mas, mesmo assim, ele ainda era o homem que podia mudar o jeito de se fazer política no Estado.

A falta de aumento para os funcionários municipais, o aperto nas escalas de trabalho, a falta de compromisso com a cultura e os jovens, deixando até o crack se infiltrar na cidade como uma peste, não foram suficientes para se deixar de acreditar nele. Até os boatos começarem a circular. Mas eram só boatos.

Até quando? Até o homem que se projetou na política pelo carisma e, principalmente, pelas pessoas que deram suas caras a bater, brigando por cada espaço no bairro, na rua, para discutir, chamar pra luta, e convencer de que ele era “o cara!”, resolver se aliar a, justamente, aqueles que considerou o oposto de tudo o que ele acreditava e que, contra quem, junto com toda a militância, por anos, combateu. Então, talvez essa tenha sido a gota d’água para muitos. Ora, se até pouco tempo os atuais aliados eram a pior estirpe do mundo político, o que fazem juntos agora? Ou ele estava errado, e conseqüentemente todos nós, ou, para almejar o que quer, ele é capaz de tudo, até vender a própria alma ao Diabo.

Mas, foi assim, trabalhando sua projeção pessoal que ele passou um trator em cima de todas essas pessoas, abalou as consciências de todos eles, fez com que, junto com sua credibilidade, os seus seguidores, desde a época do PT, também perdessem as suas.

O que se empenhou foi a confiança e o troco foi a traição.

Judas, o traidor de Cristo, se enforcou! Na política também existem formas de enforcamento.

6 comentários:

Anônimo disse...

é mais uma prova de que político é tudo igual

Flávio disse...

Tem um tempo já que queria escrever sobre isso. Depois do seu post acho que não preciso mais. O meu sentimento é exatamente o mesmo. O que eu não consigo entender é o porquê! Na minha concepção ele não precisava disso de jeito nenhum. Não perdeu apenas meu voto como também a minha confiança e admiração. Infelizmente, sou obrigado a concordar com o anônimo aí. Nunca acreditei que isso fosse acontecer. De fato, político é tudo igual.

Erick de Almeida disse...

Eleitoralmente é uma aliança necessária, ele perdeu seu voto (flávio) mas vai ganhar inúmeros... Ricardo não foi atrás de apoio, ele recebeu o apóio e isso não se recusa. Isso aconteceu na primeira eleição para prefeito... É só uma releitura! Nosso querido governador também não é um bom exemplo de político. Até bem pouco tempo atrás ele fazia parte do clã cunha lima. Vamos deixar de restringir a discussão à divisão de um lado do bem e outro do mal. Existem dois projetos políticos postos: o projeto implementado na prefeitura de João Pessoa, e um outro implementado durante 10 anos de governo Maranhão (8+2). Analisemos quais dos dois trouxe mais beneficios.
O "pior" da classe política não vai ser extinta com radicalismo, eles vão participar de alguma forma desse processo de evolução política. Lula é um bom exemplo de alianças necessárias (Sarney, Temer)... Temos parâmetros para comparar quem fez algo, e quem não fez tanto!

Flávio disse...

Eu discordo, Erick. Acho que na política realmente algumas vezes pode ser válido o artifício de fazer alianças de acordo com a comodidade. Mas quando esse tipo de aliança sobrepõe todo e qualquer tipo de ideologia de ambos os lados não vejo o porque de existir. Ricardo está se comprometendo com esse grupo ao aceitar o apoio deles e o retorno vai ter que existir. Se antes ele lutou tanto pra tirar o grupo do poder, inclusive denunciando alguns integrantes que posteriormente foram até presos, como agora ele quer colaborar pra colocá-los de novo no poder? Justamente o que ele considerava de pior na política!
A comparação que você fez com o governo Lula ao meu ver não se aplica. O equivalente seria se Lula fizesse uma aliança com o próprio PSDB. Não acho que vá acontecer.

George Martins disse...

De fato, Erick, o grupo Maranhão já foi aliado do grupo Cunha Lima. O fato é que dele isso pode ser experado por que ele nunca disse a ninguem que não faria.
É diferente a briga existente entre esses dois grupos da disputa politico-ideológica que havia entre Cassio e Ricardo.
Infelizmente, a política local, que já nao era boa, se diluiu depois da desastrosa campanha de Avenzoar em 2004, e agora teremos que rodar até um RC das antigas ressurgir.

lili disse...

Ricardo se perdeu quando se aliou a Cassio Cunha Lima. Devo confessar que concordo com o anônimo. A ânsia pelo poder degenera a alma humana. acabaou dando essa impressão mesmo de que todo político é igual. Eu só queria entender o que se passou na cabeça dele quando ele escolheu se aliar Cassio.